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Livreiros são trunfo das livrarias de rua contra a ameaça das grandes plataformas

Eventos ‘extra-livro’ e a sensação de formar comunidade também são atrativos destacados por frequentadores destes espaços

Livreiros são trunfo das livrarias de rua contra a ameaça das grandes plataformas
Livreiros são trunfo das livrarias de rua contra a ameaça das grandes plataformas (Foto: Reprodução)



“Nenhuma livraria a menos”. Foi com este slogan que os amantes desses redutos literários de Belo Horizonte se mobilizaram diante do fechamento da mais tradicional livraria da cidade, a Ouvidor. Abraçando a causa, o casal de jornalistas Fred Pinho e Tati Fontes assumiu o ponto e abriu, no mesmo endereço, a Jenipapo – que, portanto, representa uma história de teimosa continuidade, que desafia a tendência monopolista das grandes plataformas virtuais de vendas de livro.

Entre as prateleiras do lugar, não por acaso, está Simone Pessoa, mais antiga livreira da cidade. É ela quem se aproxima de um visitante, que tateia, meio displicente, um exemplar de “A senhora das flores”, de Jean Genet. Com desenvoltura, puxa papo e, então, como quem conta um segredo, fala do autor, da obra e, principalmente, das obsessões literárias que atravessam aquele universo – como a romantização da figura do criminoso, cuja aposta é dobrada naquele título em especial. O pequeno spoiler basta para aguçar a curiosidade do rapaz, que sai com o livro debaixo do braço.

Sem dúvida, a naturalidade da conversa e o poder de convencimento de Simone têm a ver com sua longeva trajetória. “Eu tenho 63 anos e uns 28 de livraria”, contabiliza, indicando que, nessas quase três décadas, passou por várias casas conhecidas dos leitores da cidade. “Trabalhei na mais antiga, a Ouvidor – que funcionava neste mesmo lugar onde hoje é a Jenipapo. Fiquei quase 25 anos nela. Depois vieram a Travessa, a Quixote, a Mineiriana e a Livraria da Rua – mas nelas fiquei pouco, coisa de um ou dois anos”, situa.
Simone Pessoa, a mais antiga livreira de BH | Crédito: Fred Magno/O Tempo

Nascida em Ferros e criada em Dores do Indaiá, Simone mudou-se para Belo Horizonte aos 18 anos, para estudar biblioteconomia. “Mas, depois de formada, não gostei e comecei a trabalhar em livrarias, que foi a melhor coisa desse campo que encontrei”, relata. Desde então, acompanhou de perto as transformações das livrarias de rua na capital.

Com tanta bagagem, ela tem seus palpites sobre o que mantém esses espaços vivos: “Em primeiro lugar, é o fascínio pelo livro e pelo espaço da leitura. Em segundo, tem uma construção cultural. Vejo muitas famílias que vinham aqui com os filhos bebês. Hoje, eles também são leitores e continuam frequentando. Acho que isso é uma característica de Belo Horizonte, que é uma cidade leitora. Isso está na nossa formação cultural”, analisa, apontando que o fenômeno contribui para uma renovação contínua do público – ainda que reconheça que, hoje, o papel concorre com outras distrações. “Na minha geração, a disputa era com a televisão. Agora, é com o onipresente celular, então é mais complicado… Mas, mesmo assim, o livro continua”, diz.
Programa de adulto e de criança

Entre os frequentadores assíduos está o advogado e colecionador apaixonado Bernardo Oliveira, de 37 anos. Confirmando as análises de Simone, ele frequenta livrarias desde criança. “Eu sou de BH, frequento esses espaços desde sempre, além dos sebos do centro, principalmente do Maletta”, cita. Foi ainda na infância que iniciou sua coleção. “Comecei em janeiro de 1998, aos 9 anos”, recorda ele, que, atualmente, mantém em casa uma biblioteca extensa. “Eu tenho algo entre 3.000 e 5.000 revistas em quadrinhos. E, livros convencionais, devo ter uns 2.000 a 3.000 volumes”, informa. O acervo, tão amplo, mais que exigir novas prateleiras, já o obrigou a se mudar de casa.
Colecionador de revistas em quadrinhos e livros, o advogado Bernardo Oliveira faz parte da comunidade de frequentadores de livrarias de rua de BH | Crédito: Fred Magno/O Tempo

Hoje, Bernardo mantém o hábito, mas se concentra mais na região da Savassi. “Eu sou um frequentador bem assíduo das livrarias da rua Fernandes Tourinho, tanto da Jenipapo, quanto da Quixote. Ali se formou uma comunidade de amigos”, informa.

Ele costuma ir ao menos uma vez por semana às livrarias – quase sempre aos sábados, os dias mais festivos nesses espaços. “Sempre compro alguma coisa ou então conheço coisas novas”, menciona. Também participa de debates e encontros promovidos nesses lugares. “Tem os clubes de leitura e eventos, como o curso de História com a Heloisa Starling… Esses eventos atraem grandes pensadores, grandes escritores do mercado brasileiro para debater política, debater história, debater filosofia. Isso, com certeza, é outro atrativo”, assinala.

Para ele, a sobrevivência das livrarias físicas, mesmo diante da concorrência digital, encontra explicação justamente na pessoalidade no atendimento e nas programações “extra-livro”, como os eventos que mencionou. “É uma coisa que você não vai ter na internet”. Outro motivo é o encontro. “Pesa muito o fato de ser um ponto de encontro. Um ponto de encontro para conhecer pessoas”.

Leia também: Por que ainda vamos a livrarias? Leitores contam o que os faz voltar a esses redutos literários

A sociabilidade é um componente tão patente nesses lugares que ele próprio já chegou a engatar um romance com uma frequentadora. “Essas livrarias, as livrarias de rua pequenas, elas permitem essa proximidade entre as pessoas e oferecem uma certa curadoria. Os atendentes, principalmente a Simone, sempre indicam coisas bacanas. Eles não costumam errar seus palpites”, brinca, acrescentando que a conversa começa com a venda, mas se amplia: “Enquanto você está ali conversando sobre determinado livro, outras pessoas escutam e vão entrando na conversa. De repente você sai com um livro e um novo amigo”, diz. Bom, a partir da história dele, talvez até com uma nova namorada.
Sábados festivos

A comunidade de leitores belo-horizontinos que orbita as livrarias de rua tem nos sábados um dia de festa. A data aparece nas falas dos frequentadores e livreiros como um marco, quase como um rito coletivo. É o dia de circular, encontrar gente conhecida, folhear novidades, participar de lançamentos e fazer brindes. 

“Sábado é o grande dia de livraria. Sempre foi e ainda é. É um dia festivo, é um dia de convivência, as pessoas se encontram, quando os pais trazem seus filhos”, resume a livreira Simone Pessoa, que acumula quase três décadas de trabalho em livrarias da cidade.

Percepção igual tem frequentadores como o advogado Bernardo Oliveira, que visita regularmente as livrarias de rua da Savassi. “Nesse lugares, se forma uma comunidade de amigos. E, hoje, naquela região, por ter umas pracinhas e parklets em frente esses estabelecimentos, o movimento se espalha. Então, passamos de uma para outra. Depois, vamos para uma loja de discos próxima ou vamos procurar um chopp em um bar ao lado. Principalmente aos sábados, isso é muito comum”, observa.

A data é também especial por ser quando ocorrem a maioria dos lançamentos. “Esses eventos, por si só, são sempre muito festivos. Aqui são feitos na praça. Mas é uma festa, com bebida e tudo mais. Costumo dizer que são como uma vernissage, têm esse mesmo espírito de confraternização”, compara a livreira.

Jornal O tempo



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